sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 3



Nos anos 1980, Nilson Chaves e Vital Lima faziam parte de um grupo de compositores que se dedicou a disputar festivais de música pelo interior do país. Eles e artistas como Celso Viáfora, a dupla Jean e Paulo Garfunkel, entre outros, inscreviam suas composições nos principais festivais que aconteciam nos diversos cantos do Brasil, onde chegavam sempre como favoritos. Aqui e ali iam ganhando prêmios. Por um bom tempo, alguns fizeram disso quase uma profissão. 

No sábado seguinte, marcado para a final, chegamos ansiosos ao Chafic. As apresentações aconteceriam na quadra de esportes, um espaço amplo e coberto que havia no colégio e que tinha um palco numa das extremidades, não sei dizer agora se esse palco era uma estrutura fixa ou montada apenas para o festival. Tínhamos uma torcida considerável. Fora os amigos e alguns parentes, havia muita gente na plateia que torcia pela nossa música, que àquela altura era considerada uma das favoritas aos prêmios em dinheiro que seriam dados aos três primeiros lugares. Tínhamos conquistado também a simpatia de vários dos nossos concorrentes, que diziam abertamente que gostariam de ver a “Encanto feminino” entre as primeiras colocadas.


Entre os festivais de música da época, o de Avaré, no estado de São Paulo, era um dos principais, tanto pelo nível dos concorrentes quanto pela premiação. Moacir Luz soube da qualidade do festival pelo seu amigo Lenine. inscreveu a música "Choro das ondas" e conquistou o quarto lugar. Mais animado ainda, no ano seguinte inscreveu "Alafim", parceria com Aldir Blanc, com a qual ganhou o festival. Como era de praxe, o ganhador participava do  júri no ano seguinte, juri que aliás era presidido pelo Zuza Homem de Mello. Quando Moa soube que o prêmio do ano seguinte seria um carro, ele abriu mão de ser jurado e concorreu de novo. Resultado, ganhou um carro zerinho, que vendeu na manhã seguinte numa concessionária da cidade (fonte: Blog do Moa).

A acolhida do público que lotava aquele espaço foi calorosa, do começo ao final da nossa apresentação. Primeiro o silêncio, todos queriam mesmo ouvir a música. Depois, aplausos e gritos entusiasmados irromperam assim que terminamos de cantar. Não resisti a olhar para o júri, um grupo de aproximadamente dez pessoas, entre professores de arte e música, além de um ou outro músico e de representantes de entidades como o Lions Club local. Por local entenda-se os bairros de Santana e Tucuruvi, então os mais populosos e dinâmicos da Zona Norte de São Paulo. Três jurados anotavam algo em cartões enquanto balançavam a cabeça positivamente.


A música "Encontro das águas", composição de Jota Maranhão e Jorge Vercillo, era uma das concorrentes na mesma edição do festival de Avaré em que Moacir Luz obteve o quarto lugar. Embora tenha perdido grande parte do seu brilho, esse festival continua a ser realizado todos os anos. Neste 2009, o evento chegou à sua 27a. edição. 

Outras músicas também tiveram acolhida calorosa. O nível daquele festival amador era realmente bom. Todos os participantes tinham, como eu, crescido ouvindo música brasileira de muita qualidade, desde aquela produzida para os festivais da Record até os clássicos da época da ditadura. O mercado fonográfico nacional ainda não tinha entrado na fase de lançar modismos musicais. A geração que gostava de música brasileira naquele início dos anos 80 ainda consumia em larga escala a obra dos grandes nomes da MPB, muitos dos quais se encontravam no auge de sua carreira, vendendo centenas de milhares de discos. Uma das músicas concorrentes era particularmente muito boa, uma marcha-rancho com ótima letra e melodia inspirada. Era interpretada por um grupo de bons músicos e pelo autor no vocal, que dava bem conta do recado. Fiquei atento a cada apresentação, e quando elas terminaram, avaliei que brigávamos com pelo menos cinco boas canções, sendo que a marcha-rancho me parecia ser a concorrente mais forte. Eu estava certo.


Neste vídeo, a música "Tempodestino", de Nilson Chaves e Vital Lima, cantada pelos dois com a participação de Leila Pinheiro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Intervalo - Ney Matogrosso



Ex-vocalista do Secos & Molhados, grupo que marcou época com apenas dois LPs lançados na primeira metade da década de 1970, Ney Matogrosso foi sempre um transgressor. Dono de uma voz incomum, tão aguda quanto límpida, transita com desenvoltura por todos os estilos de música. Vai dos maiores clássicos da MPB ao som regional ou pop, e sempre com muita originalidade e talento. A bela “Viajante”, de Tereza Tinoco, foi um dos maiores sucessos do ano de 1981. Era uma das músicas que mais me pediam para cantar, onde quer que eu estivesse com o violão. No embalo das canções do Lô Borges e do Beto Guedes, que eu ouvia muito e que por isso influenciaram muitas das minhas composições da época, eu costumava ter facilidade para alcançar notas mais altas. De certa forma, isso fez com que eu viesse a desenvolver uma extensão de voz maior do que teria naturalmente, já que meu pai e meu irmão possuem um registro vocal bastante grave. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 2


Lucinha Lins (aqui, em foto de Antonio Guerreiro), protagonizou a maior vaia da história da música brasileira. Em 1981, a bela loira, então casada com Ivan Lins, ainda era conhecida apenas como backing vocal dos shows do marido, quando invariavelmente roubava a atenção do público masculino (eu mesmo sou testemunha ocular e cúmplice disso). Pois no Festival MPB Shell daquele ano, último da série que a TV Globo promoveu, a vitória da música "Purpurina", de Jerônimo Jardim, defendida por Lucinha, contrariou o abarrotado Maracanãzinho, que torcia em uníssono por "Planeta Água", de Guilherme Arantes. Além das vaias, atiravam nela abanadores de papelão. Ivan subiu ao palco e pegou na mão de Lucinha, enquanto esta tentava em vão repetir a canção vencedora. 

Os ensaios foram precários, como haveria de ser, mas muito animados, como também haveria de ser. Precários porque não éramos músicos ensaiando, mas sim uma turma de amigos se divertindo de um jeito pouco comum, participando de um festival de música. Acho que só eu e o Joel levamos aquilo a sério, ao nosso modo. Não lembro mais de quem chamamos para fazer parte do coro da "Encanto feminino", mas certamente estavam nele o autor da letra, Joel de Moraes, meu irmão Dario, minha namorada e vizinha na época, a Elaine e... mais dois ou três que não lembro mesmo. Compramos alguns instrumentos de percussão mais acessíveis e que pareciam fáceis de tocar.


Este vídeo é estranho mesmo, mostra um pouco a Lucinha Lins no palco da final do MPB Shell de 1981 tomando um banho de vaias e o parte da apresentação do Guilherme Arantes. No meio, surge um quizz não identificado. Como não encontrei outro registro da história, vai esse.

A vedete era um "pau de chuva", que dava um som lindo na hora dos vocais sem letra. Tínhamos também dois caxixis, além de outras quinquilharias meio improvisadas. A ideia era fazer um som que remetesse a ruidos da natureza, criando um clima meio natureba, mas principalmente ajudar o violão a preencher possíveis vazios sonoros. Montei a estrutura da música, definimos juntos os momentos em que o coro entrava e gostamos do que fomos capazes de conseguir, sem conhecimento musical. Mas é claro que a música era o que nos dava confiança. "Encanto feminino" tinha carisma. Melodia e letra contavam uma história envolvente e bonita. Era chegar na eliminatória e tentar dar o recado sem errar, porque tínhamos certeza de que nosso "produto" era bom.


Lula presenteia o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, com um legítimo pau de chuva, instrumento de percussão de origem indígena, provavelmente da região amazônica. Ao ser inclinado, pequenas miçangas no interior produzem um som que se assemelha ao de água corrente.

Com toda essa expectativa em torno da "Encanto feminino", o samba "No fundo do fundo" ficou em segundo plano. E bota segundo plano nisso. Meu violão se encarregaria de fazer a marcação principal, eu cantaria e o Joel, o Dario e mais um amigo que também não me recordo quem era ficariam incumbidos de fazer o vocal e algo o mais próximo que fosse de um batuque. Para isso, emprestamos um tamborim e, se não me engano, compramos um agogô., Batíamos naquilo como quem está chamando chuva, mas estava valendo, pois não tínhamos mesmo nenhuma experiência com samba. Mas o samba era bom, eu tinha feito em homenagem à Maria, como já contei aqui num post anterior, minha amiga que sambava lidamente e pela qual tive uma paixão não revelada. Também já contei aqui que essa música é uma das raras que sobreviveram às que fiz naquela época. Então, se a gente também não errasse, podia  até ser que o samba fosse para a final.


A década de 60 tinha ficado para trás, mas o início dos anos 80 parecia querer provar que o interesse por festivais de música brasileira permanecia vivo.

Eram duas eliminatórias em dois sábados seguidos, com 15 músicas cada. Participamos de ambas, na primeira com "Encanto feminino"; na segunda, com "No fundo do fundo". A final seria no terceiro sábado, reunindo as 6 classificadas de cada eliminatória, ou seja, 12 músicas disputando os três primeiros lugares, fora o prêmio de melhor intérprete, que incluia até as não classificadas. A "Encanto" foi muito bem recebida pela platéia. Ao final de todas as apresentações, recebemos a notícia da classificação para a final. A comemoração foi grande. No sábado seguinte, a "No fundo" não provocou tanto entusiasmo, mas foi elogiada. Por sugestão dos organizadores do evento, um grupo de samba que participava do festival se ofereceu para me ajudar na apresentação, fazendo a marcação do ritmo. Por um misto de timidez e soberba, agradeci mas declinei da oferta. Pura estupidez. Fiquei sabendo depois que os jurados lamentaram o fato do samba ser tão bom mas ter sido mal executado. O grupo de sambistas emplacou a música deles, um samba empolgante e impecavelmente conduzido. "No fundo" ficou no caminho. Mas estaríamos de volta no sábado seguinte para defender a "Encanto". A briga ia ser boa. Havia concorrentes com belas canções, músicos e compositores acostumados a frequentar festivais amadores. Para nós, tudo era lucro.


Em 1985, a TV Globo inventou um novo festival, que recebeu o pretensioso nome de Festival dos Festivais. A canção vencedora foi "Escrito nas estrelas", de Carlos Rennó e Arnaldo Black, defendida pela matogrossense Tetê Espindola. Com sua voz poderosa e timbre pra lá de incomum, Tetê emitia, sem saber, o canto do cisne dos grandes festivais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 1



1981 ainda não terminara, eu ainda não havia atingido a maioridade civil, portanto ainda não estava livre de ser convocado para o exército. Sem conseguir trabalho, eu continuava passando os dias fazendo minhas canções. Na maioria delas eu procurava me aproximar das coisas que ouvia, por isso elas iam do som dos mineiros do Clube da Esquina aos sambas do Chico Buarque, passando por Milton Nascimento, MPB-4, Boca Livre, entre outras referências. Ia compondo, mostrando pros amigos e recebendo elogios. Nessa época, meu amigo Joel se apaixonou por uma garota de um bairro próximo ao nosso. Na verdade, a Vila Nivi era grudada na Vila Gustavo, onde eu morava, que por sua vez era vizinha da Vila Medeiros, endereço do Joel, todos bairros da Zona Norte paulistana, caracterizados como reduto de classe média baixa. Havia alguns núcleos de exceção, famílias com poder aquisitivo maior que a maioria dos que viviam por ali, e esse era o caso da família da Estela. A casa dela era ampla, bonita, e ficava na esquina de uma rua sem saída, onde a maioria das casas era de bom padrão. Durante um certo tempo, a casa da Estela serviu de QG para uma turma de amigos e amigas. Nos reuníamos ali nas noites de sábado e tardes de domingo para ouvir discos de MPB, conversar, beber um pouco, nos divertir sem gastar quase nada. E também para namorar. Bem antes de me apresentar à sua nova paixão e da nossa turma se formar, o Joel me mostrou um poema. Era dedicado à Estela, e narrava com delicadeza o que seria, na visão dele, a passagem da menina para a mulher. O poema chamava “Encanto feminino”, e ele pediu que eu musicasse aquilo.

O garrancho que ainda guardo mostra a data desta parceria com o Joel: julho de 1981.

Eu ainda não tinha feito melodia para a letra de outra pessoa. Estava habituado a pensar nas duas coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes, aliás, a letra me apontava o caminho que a melodia devia seguir. Mas encarei o desafio e não demorei nada a mostrar o resultado. Tive que mexer um pouquinho aqui e ali, adequar uma e outra palavra ou frase para que tudo coubesse na métrica da música. Também acrescentei alguma coisa na segunda parte. Ele gostou muito do que ouviu. Era uma bossa-nova com andamento lento. Começava com um vocal bem aberto e melodioso, que procurava sugerir o despertar de uma manhã de sol. Tão marcante ficou essa abertura, que adotei o vocal como uma espécie de refrão, repetindo-o no meio e no final da música. Usei e abusei de acordes com sétima maior, que davam uma sonoridade expansiva muito bonita e adequada ao clima da letra. Para cantar a música, minha voz ia lá em cima, beirando o falsete, e eu já imaginava um apoio de timbres masculinos e femininos em certos momentos da canção, principalmente na abertura.



Todos que ouviram gostaram muito da música, e ela realmente ficou bonita. Decidimos inscrevê-la no festival de MPB de um dos principais colégios da Zona Norte, o Chafic – Centro de Habilitação, Filosofia e Cultura. Era um festival muito concorrido, estava em sua terceira edição, mas sabíamos que a música tinha força, então comecei a conceber o arranjo e a execução do que íríamos apresentar. Os amigos mais próximos fariam o coro e a percussão. Eu cantaria acompanhado do meu inseparável Di Giorgio. Nesse festival havia um outro atrativo: eles dariam um prêmio para o melhor intérprete. Gravei a música apenas com voz e violão em uma fita cassete e fui ao colégio me inscrever. Na bagagem, levei também um samba só meu, que havia feito em segredo para a minha amiga Maria, dois meses depois de compor a melodia da Encanto feminino", chamado “No fundo do fundo” (calma, não é nada disso que você está pensando). A sorte estava lançada. Era esperar pela peneira inicial dos jurados para saber se alguma delas seria classificada para as eliminatórias. Havia mais de duas centenas de canções inscritas, estar entre as classificadas já seria uma vitória. Até que veio a notícia. Foram duas vitórias. As duas músicas tinahm sido classificadas. Aí, deu aquele frio na barriga. Seria a primeira vez que eu cantaria em voz solo diante de uma platéia duas músicas minhas. Mais do que isso, eu não fazia a menor ideia de como defenderia o samba, já que eu e meus amigos mal sabíamos batucar numa caixa de fósforos.



"Daphnis et Chloé", obra composta para balé pelo francês Maurice Ravel, estreou em Paris em 1912. Esta é a segunda e mais popular parte da peça. É uma das músicas mais bonitas que conheço e, arrisco dizer, uma das composições mais inspiradas de todos os tempos. Sei que a intenção do autor não foi essa, mas sempre enxerguei nessa música a mais perfeita narrativa do nascer do sol.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Teste na Polygram - parte final


Nos anos 1970, além das chamadas canções de protesto, a maioria delas censuradas, e dos artistas românticos, muitos egressos da Jovem Guarda, as rádios do país foram invadidas por músicas melosas na língua inglesa. Nada muito surpreendente, numa época em que a moda americana da disco music chegava com tudo, a não ser por um detalhe: essas músicas eram cantadas por artistas brasileiros. Outro detalhe: o público não fazia a menor ideia disso. O início dos anos 80 ainda sofreria com os ecos dessa escrita das músicas internacionais cantadas por brasileilros, mas agora o que fazia sucesso eram as versões dessas músicas. Sem muito critério, muitas vezes aproveitando apenas a sonoridade da palavra ou da frase para adaptar novas letras em português, sucessos americanos eram requentados e despejados a granel, principalmente nas vozes de cantoras que eram presença certa nos principais programas de auditório da TV brasileira.


"Don't let me cry", sucesso de 1973 cantado por Mark Davis, o nosso conhecido Fábio Junior

No dia combinado partimos, eu e a candidata a cantora, para o teste que ela tinha marcado na Polygram. Ensaiamos minha música por alguns dias, e ela tinha chegado ao melhor que podia, o que não significava nada muito convincente. Eu havia reservado a mim o papel de coadjuvante na história. Sinceramente, não me sentia preparado para ir lá “mostrar minha música”. Naquele momento, não passava por minha cabeça investir numa carreira de compositor, até porque tinha muito pouca coisa ainda e nenhum conhecimento musical que me desse alguma segurança. Fazer músicas era para mim apenas uma nova forma de expressão, que eu usava para driblar a timidez atávica. Subi o elevador do prédio em que ficava a poderosa Polygram com meu violão a tiracolo apenas para acompanhar a moça. Não esperava nem ser muito notado, como de fato não fui. A não ser por dois detalhes.


"If you could remember", com Tony Stevens, que na verdade era o cantor Jessé

A sala era grande, o executivo tinha todo o jeitão de um executivo. Gravata escura, camisa branca com os punhos dobrados, uma poltrona confortável, uma mesa enorme, e nós dois sentados em duas cadeiras em frente a ele. Depois de um ligeiro prólogo em que ela avisou que cantaria uma música minha, ele pediu que começássemos. Antes que eu fizesse soar o acorde Lá maior com sétima, ele interrompeu: "Não é samba, não, é? Porque samba é lá na sucursal da gravadora no Rio". Não, não era samba, então tudo bem. Blém! "Não, peraí, primeiro afina o violão, né?" E quem disse que eu conseguia afinar o violão sem meu diapasão por perto? Ele percebeu e pegou o instrumento de mim. Com 5 ou 6 movimentos, parecia tudo em ordem. Pronto, devolvido o violão, vamos lá.


Mauricio Alberto, o Morris Albert, e seu estrondoso sucesso "Feelings". Esta música foi regravada milhares de vezes em duas dezenas de idiomas, inclusive por cantores como Ella Fitzgerald e Jonny Mathis, e vendeu 150 milhões de cópias em 50 países. Em 1988, um tribunal americano considerou as primeiras notas de "Fellings" iguais às de "Pour Toi", canção composta nos anos 50 por Lou Lou Gasté. Morris Albert foi então condenado por plágio, e 3 milhões de dólares arrecadados em direitos autorais nos EUA foram repassados integralmente ao francês.

Ela cantou minha música como tínhamos ensaiado. E como eu previa, nenhum brilho, nada que sugerisse nada, a não ser que não devíamos estar ali. Terminamos. Alguns míseros segundos depois e ele vaticinou, sem meias palavras: "Você não serve pra ser cantora. Se tivesse uma voz mais forte e afinada, poderia gravar versões, já que é uma garota bonita e atraente (ela tinha saído de casa com uma mini-saia que não havia como meu violão manter a afinação), mas não tem voz pra isso". E prosseguiu: "Mas a música eu gostei, você tem mais?" Não, eu comecei a compor agora, respondi quase sumindo na poltrona. "Pois leva jeito", disse ele nos dispensando e agradecendo a visita. Terminava ali o sonho daquela moça de ser cantora. Mas a música era realmente boa. Até hoje sei que ela é boa, embora sua estrutura seja muito simples e não tenha nada que ver com o que faço e ouço atualmente. Voltamos para a Vila Gustavo como viemos, de ônibus e metrô, mas agora quase sem falar um com o outro. Ela realmente ficou triste. Eu também, apesar do elogio que ouvi. Continuamos amigos por algum tempo e ela continuou gostando das músicas que eu fazia. Até que nunca mais nos vimos.


A onda de canções estrangeiras que passaram a predominar nas rádios brasileiras, deu origem a várias músicas que reivindicavam um maior espaço para as produções nacionais. Alcione gravou "Não deixe o samba morrer" em 1975, música que se tornou tema do programa "Alerta Geral", exibido na TV Globo de março de 1979 a maio de 1981. Comandado pela própria Alcione, o programa tinha como mote justamente a defesa da MPB e de seus artistas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Intervalo - Rita Lee


A paulistana Rita Lee Jones, filha de um imigrante norte-americano e de uma neta de italianos, fez parte de grupos musicais desde a adolescência. De um desses grupos, que se fundiu com os remanescentes de outro, nasceu O Konjunto, que por sugestão do cantor Ronnie Von mudou de nome para Os Mutantes. Uma das bandas mais originais da música brasileira, Os Mutantes acompanharam Gilberto Gil no III Festival de MPB da Record, em 1967, fazendo os vocais e guitarras da antológica “Domingo no parque”, segunda colocada no festival, atrás da também legendária "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam. Rita Lee, que foi casada com Arnaldo Baptista, um dos integrantes d’ Os Mutantes, deixou o grupo em 1972, prosseguindo em sua mutação musical nos anos seguintes, primeiro formando dupla com Lúcia Turnbull, depois montando outra banda, a Tutti Frutti, que teve como maior sucesso a música “Menino bonito”. No início dos anos 1980, em parceria com o músico e compositor carioca Roberto de Carvalho (com quem vivia desde 1976), Rita estourou no país inteiro. Em 1981, todas as oito faixas do disco que havia lançado no ano anterior ficaram entre as mais executadas. A roqueira finalmente conquistava o reconhecimento da crítica e do público e se tornava uma unanimidade nacional.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Teste na Polygram - parte 1


Em 1981 eu completaria 18 anos de idade. O primeiro efeito civil de tal efeméride era poder, ou melhor, ser obrigado a tirar o Título de Eleitor. Uma providência que só não se mostrou totalmente inútil num país que vivia uma ditadura porque as coisas começavam a mudar. No ano seguinte, houve eleições para governador de estado em todo o Brasil. Sendo eleitor em São Paulo, e já assumidamente de esquerda, não lembro se votei no sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva ou no senador Franco Montoro, que acabou eleito pelo PMDB. Eleição que, aliás, abriu uma vaga  no Senado Federal que foi preenchida pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

O grupo “Sangue Novo” se desfez. Acho que não houve uma razão específica. O fato é que a fase da vida em que estamos prestes a atingir a maioridade é particularmente inconstante. Estávamos terminando o ano de 1980. Com a vitória naquele festival com a música “Hino aos trabalhadores”, da qual me tornei parceiro acidental, e a mais do que evidente vocação que eu e meu irmão demonstrávamos ter para a música desde pequenos, meu pai resolveu separar parte das economias da família – que àquela altura já estavam melhorando – para nos presentear com um violão. Era um Di Giorgio modelo “Estudante nº. 16”, um para os dois. Perfeito para que a gente se animasse com a possibilidade de tocar as músicas que gostávamos de ouvir e cantar. Combinamos um revezamento, um tempo x para que cada um pudesse se dedicar ao instrumento. Logo ficou claro que eu tinha muito mais paciência que meu irmão para aprender os acordes e os ritmos. Minha verdadeira intenção ia além de tocar e cantar os sucessos do rádio. Eu queria compor minhas próprias canções. Mas antes de tudo, eu tinha uma promessa a cumprir. Como relatei anteriormente aqui, quando eu tinha 12 anos de idade eu havia prometido que, assim que pudesse ter um violão, a primeira música que eu ia aprender seria “A banda”, do Chico Buarque. Eu não fazia a menor idéia de como executar a canção, então fiz o que faziam praticamente todos que naquela época queriam tocar violão mas não podiam pagar uma escola de música ou um professor particular: corri para uma banca de revistas e comprei um exemplar da “Violão & Guitarra”, exatamente uma edição especial que trazia algumas das principais músicas do Chico devidamente cifradas. A harmonia estava toda lá, e os acordes eram relativamente simples, o que facilitou muito meu trabalho. Em poucos dias eu já conseguia tocar e cantar “A banda” para quem arriscasse ouvir.


Pra minha sorte, a harmonia da "A banda", que vinha na revista Violão & Guitarra (a imagem acima foi escaneada da edição original, que guardo até hoje), não trazia nenhuma dificuldade, mesmo para quem, como eu, apenas engatinhava no instrumento. Outra música que aprendi de cara foi "Pra não dizer que não falei das flores", do Geraldo Vandré. Esse clássico das canções de protesto dos anos 1960 era presença obrigatória no repertório de qualquer um que tivesse seu violão e gostasse de MPB, já que pode ser cantada e acompanhada com o uso de apenas dois acordes básicos: Am (lá menor) e G (sol maior).

Nessa época, as musas conspiraram a favor da minha iniciação musical. Depois de quase um ano sem evoluir na maçante rotina do Bradesco, fui gentilmente demitido. Eu já tinha 17 anos de idade, ou seja, a época de servir o exército se avizinhava, e empresa nenhuma queria manter em seu quadro um rapaz nessas condições. Eu não fazia ideia de que a legislação trabalhista me protegeria, caso eu entrasse com uma ação para anular a demissão, e na verdade não dei a menor bola para isso, pois não suportava mais aquele trabalho. Tentei arranjar alguma coisa sem registro, cheguei a ser aceito como vendedor numa grande loja de calçados que havia na principal avenida do meu bairro, mas às 8 horas da segunda-feira em que cheguei lá, animado para o meu primeiro dia na minha nova ocupação, a gerente que havia fechado comigo se desculpou dizendo que o dono não queria correr o risco de empregar alguém informalmente. Fiquei frustrado, pois precisava continuar trabalhando, já que terminara o colegial e pretendia entrar na faculdade. Sem recursos para pagar um cursinho eu dificilmente conseguiria passar no vestibular da USP, única opção para continuar estudando gratuitamente. Bem que tentei, mas não passei nem na primeira fase da Fuvest, tamanha a defasagem que eu tinha em relação a quem vinha de escolas particulares, muitos deles com reforço de um cursinho no último ano do colegial. Embora naquela época houvesse bem menos vestibulandos que hoje, havia também poucas faculdades e bem poucos cursos, por isso a concorrência era ainda maior, e entrar numa das principais faculdades de São Paulo, mesmo nas particulares, como PUC e Mackenzie, era um feito que se comemorava muito. Tive, então, a ajuda do meu pai, que garantiu para mim a mensalidade de um curso pré-vestibular. Estudei no Poli, cursinho mantido pela Escola Politécnica, que por ter seu custo subsidiado pela USP era mais acessível que os campeões de aprovação Anglo e Etapa.


A música "Como o mar no cais" é provavelmente a primeira que compus e registrei no papel e na memória. Foi feita às vésperas do Natal de 1980, segundo a data visivel na parte superior deste manuscrito original. A sequência de acordes da harmonia é a mais simplória possível, mas a letra, a meu ver, não é de todo ruim, especialmente para quem mal havia completado 17 anos de idade: "Tens a cor da lua triste / entristece a minha noite / fujo e nada de partida / e em meio corpo é como açoite / em minha vida / fica como o mar no cais". A melodia também é interessante, considerando meu estágio na época. Curiosamente, trata-se de um fado.  

Desempregado, ao invés de estudar eu me trancava no quarto quase o dia todo para tocar violão. Como sempre acontecera até então, eu não tinha um espaço só meu. Dividia com meu irmão e minhas duas irmãs um quarto com dois beliches. Meu irmão estava na Aeronáutica. Ficou por lá três anos, saindo depois que desistiu de dar sequência na carreira de ofical da força aérea. Eu só queria saber de tocar violão e compor. Pegava os acordes que aprendia e saía fazendo músicas. A maioria era de qualidade duvidosa, mas eu não me importava com isso e ia anotando tudo. As melodias eu registrava na memória, já que não tínhamos um gravador portátil em casa. Havia dias em que eu compunha três músicas. Também ia aprendendo várias canções de sucesso, razão pela qual comecei a ser convidado para ir a inúmeras festas e reuniões de amigos e de amigos dos amigos, desde que, claro, eu levasse o violão. Minha timidez ficava escondida atrás de um repertório de MPB que agradava a maioria das garotas e rapazes que me ouviam, mas eu só mostrava minhas próprias canções para poucas pessoas. Uma delas foi uma "amiga" (assim mesmo, entre aspas) do meu irmão, que tinha a pretensão de se tornar artista. Por intermédio de um cantor muito popular da época que ela havia conhecido, o Dudu França, ela conseguiu um teste na Polygram, a principal gravadora de então. O teste consistia em cantar alguma coisa para um diretor musical do selo, num dia qualquer da semana seguinte. Ela me perguntou se eu toparia acompanhá-la no teste tocando violão. Eu respondi que iria. Ela completou dizendo que no teste queria cantar uma música minha, uma das que ela mais gostava, chamada “Entre sol e lua”. Mesmo sem ter exata noção do que aquilo significava ou poderia significar, eu curti muito aquela ideia. A moça era lourinha, bem bonitinha, bem bacaninha e até bem gostosinha, porém, eu bem sabia, ela não cantava era nada. Então, nos pusemos a ensaiar quase todos os dias.